EDUCAÇÃO PARA A PAZ A REALIDADE DA INCLUSÃO: A IGUALDADE DOS DESIGUAIS

Marisa Pascarelli Agrello[1]

Joaquim José Jacinto Escola[2]

Introdução

“Nunca poderemos obter paz no mundo exterior até que consigamos estar em paz com nós próprios”.

Dalai Lama

O início desse capítulo reflete o panorama no qual se encontra a Educação atualmente, ou seja, caminhando em várias direções, buscando entre práticas, alternativas, incluir os que excluem, sufocando, maqueando, calando, abarrotando as salas de aula em nome de “uma escola para todos”, aonde na verdade, não temos “uma escola para ninguém”, nem para professores e nem para alunos, pois eles não se conhecem, não se vinculam, só estão juntos para cumprir metas e currículos traçados uniformemente para todos de forma igualitária.

São somente números nas estatísticas que mostram um índice fictício, a fim de demonstrarem ao mundo que evoluímos; que a Educação é a base sólida para o futuro do ser humano sem preconceitos e discriminação. Como seria bom se fosse verdade!

Queiramos ou não, somos seres em evolução desde que somos concebidos; e ao nascermos vamos evoluído de acordo com as relações suficientemente boas ou não com os nossos pais, ou as pessoas que cuidam de nós. Dessa forma, mudamos nossos conceitos internos pelo vínculo de afeto ou desafeto e pelas mudanças no meio que nos cerca.

A questão da inclusão coloca-se também no quadro da discussão mais vasta da cidadania. Se recuássemos no passado, partindo da cultura grega, compreendemos que esta se inscreve na condição do ser humano enquanto membro de cidade, fazendo uso da sua condição e estatuto. Nem todos podiam aspirar à condição de cidadão, mas aqueles que beneficiavam do mesmo, revestiam-se de um poder de participação ativa nas questões / assuntos da polis. Todos os cidadãos, por condição, desde que nascem são detentores de um conjunto de direitos e deveres. Na Roma Antiga, o conceito de “cidadania” servia para designar a situação política de uma pessoa e os direitos que possuía ou que podia exercer. O conceito continua a evoluir e contemporaneamente o conceito de cidadania envolve a dimensão dos direitos civis, políticos e sociais.

Para que se tenham direitos, atualmente, temos que ter consciência que eles não nos são apenas conferidos, mas sim conquistados, ou seja, desde a nossa capacidade de organização, autonomia, disciplina, valores, ética, participação, respeito mútuo construímos e adquirimos a cidadania. Esta cidadania é conquistada primeiramente, na família, porto seguro de todo cidadão, e depois na Escola e na sociedade ao longo da sua vida.

Uma questão se impõe: Como podemos conquistar a cidadania na Escola? A resposta aponta para o que é feito pelos sujeitos no sentido de propiciar una real inclusão.

Pela “Cultura da Paz” por intermédio da mediação de conflitos, o professor, que ao invés de simplesmente colocar uma criança para pensar, ou seja, de “castigo” diante de um ato de indisciplina, poderá chamar tanto a criança, autora do ato que provocou o conflito, quanto quem foi de certa forma a “vítima” deste ato, dialogar de forma que sensibilize quem o praticou a se colocar no lugar de quem sofreu as consequências. Lógico, que este diálogo acontecerá mediante uma linguagem acessível às crianças.

Devemos proporcionar às crianças sem distinção, a responsabilidade pelos seus materiais; por manter a sala em ordem; por respeitar os professores e os amiguinhos; por cumprimentar as pessoas que trabalham na escola; por guardar cada coisa em seu lugar; por atividades de vida diária; por respeito à natureza.

Ficar sempre de castigo acaba se tornando uma rotina, um meio de chamar a atenção não atingindo um objetivo positivo de construção de conhecimento ou de exercício de cidadania, mas sim de indisciplina e inversão de valores, o que pode ser muito prejudicial futuramente. Muitas crianças preferem ser reconhecidas como: indisciplinadas, malcriadas, desobedientes, do que serem ignoradas.

A cidadania não nos é dada e sim construída desde pequeninos a mais tenra idade. Ela não surge por acaso, do nada; mas da consciência que o meu direito termina quando inicia o direito do outro. O respeito a mim mesmo e ao próximo é fundamental para que possamos conviver em sociedade e construir juntos uma sociedade melhor, mais humana, solidária, com a participação de todos em prol do bem comum. A conquista dos direitos de todos é a garantia que eles sejam cumpridos e permanentes.

Segundo Montessori (1937, p. 99),

Enquanto todos os métodos de educação escolheram como ponto de partida a obra de um adulto e procuraram educar ou instruir a criança segundo programas ditados pelos adultos, eu penso que a própria criança deve construir o eixo da sua própria educação. Não a criança como é vulgarmente considerada, mas a alma dela, sob um aspecto que não era ainda conhecido antes de surgir aquilo a que se chama o nosso método.

No desenvolvimento da sua obra de dedicação à criança, o adulto deve compreender, que tem que lidar com a revelação da alma infantil. Este trabalho deve ser orientado para um duplo fim: a construção de um ambiente adaptado a uma nova atitude do adulto para com a criança.

Para isso, o professor precisa permitir que as crianças sejam ativas; que vivam as experiências; que explorem para construírem o conhecimento e não simplesmente repitam os exercícios apresentados a elas de forma direta para acelerar o seu desenvolvimento. O que se deseja é que os professores se apropriem da teoria e que ela inspire as práticas e não as determine. Ou seja, deseja-se uma prática sustentada na teoria e não uma prática sem qualquer suporte teórico que a oriente.

O que leva a criança a interagir, não é, portanto, o fim exterior, mas o aperfeiçoamento de cada uma. Seu aperfeiçoamento se dá em contato com a realidade, por meio de atividades que despertam sua atenção.

É, portanto, pela interação com as crianças levando o professor a observá-las, ouvi-las e dar-lhes espaço na tomada de decisões, na execução das atividades e avaliação de suas atuações individuais e em equipes que propiciaremos a inclusão.

Os autores que dão embasamento científico ao capítulo são: Montessori (1970); Brandão (2000); Piaget (1980); Lagoa (1972); Sáez (2006); Jares (2002); Sacristán (2002); Silva (2000), como todos os documentos da UNESCO, propondo a reflexão de que o processo educacional necessita um repensar das atuais propostas e a possibilidade de se pensar em uma “Cultura da Paz” integrando o conteúdo do currículo com o cotidiano das práticas pedagógicas.

Desenvolvimento

“ A mão a teu irmão darás. Com ele a casa construirás. E nela viverás. A sua brasa acenderás. E nela enfim repousarás em paz”.

Albano Martins

As diferentes organizações, empresas, universidades e outras instituições, sentem, de uma forma cada vez mais presente, a importância dos seus colaboradores possuírem instrumentos e processos eficazes de lidar com contestações, de forma a responderem à maior pluralidade de pessoas e de situações de divergência interpessoal e à construção da paz nos mais diferentes contextos.

A “Cultura da Paz” pode ser entendida como um “processo pelo qual se promovem conhecimentos, habilidades, atitudes e valores” (DISKIN & ROIZMAN, 2002, p. 11) essenciais para modificar os comportamentos das crianças, jovens e adultos, de modo a proporcionar a inclusão e, ao mesmo tempo, resolver conflitos de maneira serena, designando condições que levem à paz.

A “Cultura da Paz” não se conecta com o aspirar a paz, embora isso seja fundamental, pois a importância de que a paz é um tema primaz em nossa sociedade e na espécie humana é eficaz para a edificação de uma sociedade melhor e mais serena. A “Cultura da Paz” é muito mais do que isto, aborda-se, segundo recomendam: Abarca Obregón, Herrero Rico e Amat (2011), em alargar a competência para suscitar pareceres de renovação para uma sociedade mais serena, agregando todos os participantes da comunidade.

A “Cultura da Paz” tem por objetivo proporcionar um apoio a todos os que se encontram na situação de ter de enfrentar um conflito, no sentido de que se encontrem recursos que permitam avançar na vida e melhorar o mundo em que vivemos.

A escola não é apenas um lugar de transmissão de conhecimentos, mas um lugar onde a convivência, (viver com outro), a paz e o respeito pelos direitos individuais e dos outros podem ser ensinados, aprendidos e construídos desde cedo.

Ao entender que a educação é uma evolução do ensino e aprendizagem a que uma pessoa está em construção em parceria com seu professor, queremos dizer que não compreende somente o processo escolar, ou seja, com o tempo em que alguém frequenta os diversos períodos de cursos: nas creches, nas escolas de Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio, nas Instituições de Ensino Superior, ou nos cursos de qualificação profissional. Também não percebemos educação simplesmente como aquele momento que se identificaria com a educação recebida por parte dos pais, ou então, com a convivência familiar, ainda que a mesma seja de imensa relevância para a formação basilar de alguém.

Afirmar que a educação não se esgota na sua dimensão de ensino e aprendizagem, como a exclusiva busca de alguém com objetivo de sua formação e realização, nem apenas como experiência de vida que alguém possa ter no decorrer de seus anos de vida. Assim sendo, se dissermos não compreender a educação como processo de ensino e aprendizagem, a valorização de uma modalidade ou de um momento isolado da vida de alguém, afirmamos, então, que compreendemos a educação como o processo de ensino e aprendizagem e a formação de alguém, seja enquanto é a busca de alguém, pelo auxílio dos pais e da família, seja pela colaboração das mais diversas instituições, capaz de fazê-lo sentir-se, enquanto ser humano, na medida em que é dotado de direitos e deveres, autônomo e responsável pela sua realização, ainda que não a tenha prévia e rigorosamente garantida, na medida em que é presença para si mesmo, presença com os outros e presença no mundo.

Há necessidade de “abrir os olhos e as mentes das pessoas para as realidades do mundo, despertando-as para contribuírem para um mundo com mais justiça, equidade e direitos humanos para todos” (CABEZUDO et al., 2010, p.87). Educar para a paz na infância exige que o educador desenvolva nas crianças “o mais genuíno das suas personalidades” (DISKIN & ROIZMAN, 2002, p. 11).

Portanto, precisamos iniciar revisitando os conceitos de integração, inclusão de crianças com deficiências no ensino regular e o que as famílias, a escola e a sociedade estão, ou não, fazendo em parceria para que realmente aconteça de fato e de direito embasado na “Cultura da Paz”.

O movimento de Integração Escolar manteve por muito tempo as práticas adaptativas, com o objetivo de propiciar a inserção ou reinserção de alunos com deficiência na escola comum, pelo exercício dos mesmos conteúdos e programas do ensino regular. O papel da Integração foi o de adaptar a criança com deficiência às exigências da escola comum tradicional.

Quando falávamos em Integração, na verdade estávamos falando em interação entre as “as pessoas com deficiência” e os “não – deficientes”. Só quando atingimos a “interação”, se é que atingimos, podemos falar em política educacional de integração.

Demo-nos conta que Educação Especial não poderia continuar a ser à parte da Educação Regular ou dita “normal”. Não poderíamos mais educar em “guetos” ou em envolvimentos isolados, que é o mesmo que deseducar, na medida em que se assume que as pessoas com deficiência não têm hipóteses de aprender.

A necessidade de encontrar soluções imediatas e direito a permanência da criança no ensino regular, fez com que algumas escolas procurassem saídas paliativas, envolvendo adaptações de currículos, de avaliações, de atendimentos individualizados em sala de aula que se destinassem unicamente às crianças com deficiência, não permitindo a socialização. Esse tipo de saídas paliativas não propiciavam uma efetiva inclusão. A criança com deficiência desafia a escola no seu objetivo de ensinar, de levar o aluno a aprender o conteúdo curricular, no modo como constrói o conhecimento. Esta criança tem sua maneira própria de lidar com o saber, que não corresponde ao que a escola preconiza.

Na concepção de uma escola inclusiva, a adaptação ao conteúdo escolar é realizada pela participação ativa do próprio aluno que atesta a sua emancipação intelectual. Essa emancipação é consequência do processo de aprendizagem da própria criança, que assimila o novo conhecimento, de acordo com suas possibilidades de interpretá-lo ao que já conhece. Esta criança tem sua maneira própria de lidar com o saber, que não corresponde ao que a escola preconiza.

Se as escolas não se reorganizarem para atenderem a todos os alunos, indistintamente, a exclusão tenderá a aumentar, provocando cada vez mais queixas vazias e maior distanciamento da escola do comum dos alunos que supostamente não aprendem. Há necessidade do envolvimento das famílias, a formação continuada dos educadores, relações claras sobre os papéis entre os profissionais e desenvolvimento de planos educacionais.

Como dizia Montessori (1937, p.108) “só a criança nos pode revelar os segredos da vida do homem espiritual”. “ É preciso que nós, adultos, estejamos vazios, para que neste vazio entre a criança e o encha”. “ A criança traz a luz às trevas que nos rodeiam”. “ As verdades sobre a criança se aprendem com a simplicidade e, geralmente, a verdade reside nas coisas simples”.

Quando a criança vive em um ambiente preparado, simples, em um clima apropriado, pode nos ensinar características diferentes daquelas que acreditamos como grandes conhecedores da verdade.

A Educação Inclusiva embasada na “Cultura da Paz” prima por um ambiente de aprendizagem escolar que tenha altas expectativas de todos os alunos; que seja seguro, acolhedor e agradável. Que encoraja práticas inovadoras, onde o planejamento seja feito de maneira colaborativa entre o professor e os alunos com o apoio de especialistas externos.

Neste sentido, “Cultura da Paz” na infância faz sentido porque esta permite que as crianças desenvolvam as suas personalidades o mais genuinamente possível, nomeadamente a harmonia que estabelecem consigo mesmas, com os outros e com o meio que as rodeia (DISKIN & ROIZMAN, 2002).

As atitudes e o ambiente de paz passam pelas experiências que as crianças vão adquirindo ao longo da sua infância. Desta forma, segundo Craveiro e Ferreira (2007), a criação de um ambiente onde a criança experiencia a solidariedade, a cooperação e a tolerância é um caminho fundamental de “Cultura da Paz”, no respeito pela humanidade e na convivência, capaz de ultrapassar barreiras culturais e descobrir nessas diferenças as riquezas inerentes de cada uma delas.

Assim, é necessário referir que a “Cultura da Paz” é um processo multifacetado e complexo, que deve ser “fundad[o] na consciencialização e orientad[o] para a ação, ou seja, onde os indivíduos têm de participar ativamente” (SILVA, 2013, p. 25).

Desta forma, parece ser importante implementar a “Cultura da Paz” por meio do método sócio crítico, pois segundo Alvarado e García (2008), pretende transformar o estilo de aprendizagem das crianças, de modo a que a aprendizagem destas se baseie na experiência e na reflexão, assim como fazer com que as crianças desenvolvam autonomia e consciência crítica. Esta aprendizagem “se construye siempre por intereses que parten de las necesidades de los grupos” ( ALVARADO e GARCIA, 2008, p. 5).

Assim, a “Cultura da Paz” deve construir-se, sempre que possível, por meio de problemáticas quotidianas das crianças, nomeadamente nos meios de comunicação, nas relações pessoais, na organização das instituições e no seio familiar (DISKIN & ROIZMAN, 2002).

A “Cultura da Paz” já se encontra oficializada pela UNESCO desde 1994, contudo, ainda há muito que trabalhar para se conseguirem encontrar maneiras de mudar definitivamente atitudes, valores e comportamentos, a fim de promover a paz, a justiça social, a segurança e a resolução de conflitos.

Díaz de Cerio (1998) define uma série de princípios essenciais à “Cultura da paz”, que podem ser postos em prática pelos educadores desde os primeiros anos, nomeadamente:  

  • Cultivar os valores, como a justiça, a cooperação, a solidariedade, a autonomia pessoal e a tomada de decisões, para promover uma educação contra a discriminação, a intolerância e o etnocentrismo;
  • Ensinar as crianças a viver consigo mesmas e com os outros de forma pacífica e com respeito;
  • Facilitar experiências e vivências, potenciando relações de paz entre todos os membros da comunidade educativa, no sentido de criar um clima gerador de atitudes de confiança, segurança e apoio mútuo, de igualdade, justiça, solidariedade e liberdade;
  • Educar na resolução de conflitos, utilizando formas de resolução não violenta e desenvolvendo competências pessoais e coletivas;
  • Desenvolver o pensamento crítico, manifestando os seus pontos de vista e as suas ideias sobre a situação mundial, assim como criticando o que julgue criticável;
  • Combater a violência dos meios de comunicação, criticando e contribuindo para criar uma opinião contrária a determinadas diversões que aparecem nas televisões, no cinema e nos videojogos;
  •  Educar para a tolerância e para a diversidade, evitando os nacionalismos e promovendo o desenvolvimento de conhecimentos sobre os outros e de atitudes de respeito;
  • Educar num diálogo de argumentação racional, promovendo capacidades de comunicação e de argumentação, ajudando a formar pessoas capazes de resolver as suas discrepâncias fazendo uso da palavra e, em consequência, da reflexão e do pensamento.

A escola, como lugar de encontro de pessoas distintas e com interesses nem sempre harmônicos, pode e deve converter-se num espaço democrático para que os alunos aprendam as atitudes básicas de uma convivência livre, democrática, solidária e participativa. É algo, sem dúvida, mais importante do que a aprendizagem de muitos conteúdos que não mudam a vida das pessoas nem melhoram a nossa sociedade (DÍAZ DE CERIO, 1998).

Para que se consiga trabalhar a “Cultura da Paz”, nomeadamente a descoberta pela dignidade pessoal e o valor de cada ser humano, é necessário haver amor por si próprio e pelos outros. Não pode ficar reduzida a uma mera aprendizagem ou instrução acerca dos valores relativos e da vida social. O educador deve ajudar a criança a descobrir o que significa amar, respeitar os outros, ser tolerante, acolher os mais frágeis, ou avaliar as necessidades dos outros.

De acordo com Díaz de Cerio (1998), é necessário definir objetivos que norteiem as capacidades e valores concretos que queremos fomentar nas crianças pela “Cultura da Paz”.

Neste sentido, destacamos os seguintes pontos fundamentais:

  • Descobrir, sentir, valorizar e viver com esperança nas capacidades pessoais como realidades e como meios eficazes que podemos pôr ao serviço dos outros e que podem contribuir para um desenvolvimento positivo e harmonioso da vida do ser humano com ou sem deficiência.
  • Reconhecer e valorizar a própria agressividade do ser humano como uma forma positiva de autoafirmação da personalidade, e ser capaz de canalizá-la para atividades que promovam e favoreçam o bem comum.
  • Desenvolver a sensibilidade, a afetividade e a ternura na descoberta e no encontro com as pessoas que nos rodeiam, tanto a um nível mais próximo, como a um nível mais universal.
  • Sentir o gozo que produz o encontro interpessoal quando se desenvolve um clima de afetividade, de confiança, de respeito, de colaboração e de ajuda mútua.
  •  Construir e potenciar relações de diálogo, de paz e de harmonia no âmbito escolar e, em geral, em todas as relações quotidianas. 
  • Reconhecer e tomar consciência das situações de conflito que podem aparecer, descobrindo e refletindo sobre as causas e sendo capazes de tomar decisões, de uma forma criativa e mediadora. 
  • Desenvolver a atenção e o interesse entre a diversidade das pessoas e das culturas, reconhecendo e potenciando essa diversidade como um grande valor, atuando sempre com uma atitude aberta, respeitadora e tolerante. 
  • Promover, desde o conhecimento de cada aluno, valorizando a autoestima, o conhecimento de outras realidades sociais, culturas e pessoas, colaborando na autoafirmação, no desenvolvimento e no enriquecimento dos povos. 
  • Conhecer e potenciar os direitos humanos e desenvolver a sensibilidade, a solidariedade e o compromisso perante situações próximas.
  • Mostrar especial atenção e sensibilidade perante as situações de conflitos, de injustiça e de subdesenvolvimento que se vivem hoje no planeta. 
  • Conhecer e colaborar ativamente com as organizações governamentais ou não governamentais, que se comprometam na luta contra a injustiça social e a discriminação e, especialmente, com a inclusão de crianças, jovens e adultos em qualquer nível de escolaridade. 

Díaz de Cerio (1998) refere que o ser humano é um ser muito completo, que atua como uma unidade e não em divisão por partes, ou seja, necessita ter consciência de algumas atitudes básicas de convivência para poder viver em paz consigo mesmo e com os que o rodeiam. Assim, importa referir que o ser humano tem de ter consciência da sua própria dignidade, fazendo e criando atitudes de justiça e moralidade da forma mais  imparcial possível.

O respeito, a compreensão, a aceitação do outro, a confiança, a tolerância, a colaboração e a cooperação com o outro, aliados a um diálogo para um bom entendimento são essenciais para a paz e para se viver em paz e em comunidade.    

Percebe-se que é altamente complexo o processo de preparação de ingresso de uma criança com deficiência na educação escolar, assim como é importante organizá-lo bem. É vital uma coordenação que defina o papel de cada participante no trabalho colaborativo, delegando responsabilidades claramente definidas.

O plano da escola precisa enfatizar a importância da colaboração com os pais. Eles são membros plenos do processo de formação de políticas e de tomada de decisões. Preparação de professores deve almejar dar-lhes conhecimento especializado sobre as necessidades específicas dos alunos, ampliando as possibilidades de inclusão.  Iniciativa das autoridades em empreendimentos e responsabilidades.

Os currículos das escolas que pretendem ser inclusivas devem ser caracterizados por sua habilidade de incorporar conteúdo que promovam o desenvolvimento de habilidades sociais, além do conteúdo acadêmico. Para atender às diferentes necessidades, o currículo e as atividades devem ser dirigidos a todos os alunos. As adaptações deverão ser feitas por meio de planos individuais que precisam garantir a participação do aluno em sala de aula.

Inclusão é uma comunidade de pessoas diferentes que atingem um nível mais alto de forma conjunta, e não sozinhas. É a consciência do fato de que todo ser humano tem necessidades especiais que devem ser tratadas adequadamente.

No ensino em equipe compreende-se melhor a necessidade de cada um.  Tornam-se mais capacitados a adotar várias estratégias para atender as múltiplas diferenças. Acentua-se a melhoria da qualidade e da quantidade de atenção recebida e transmitida aos alunos. A culminância é o  sucesso da aprendizagem cooperativa. Essa diversidade deriva das formas singulares de nos adaptarmos cognitivamente a um dado conteúdo e da possibilidade de nos expressarmos pela autorização do outro e do acreditar em suas potencialidades.

“Construir uma ‘Cultura de Paz’ é promover as transformações necessárias para que a paz seja o princípio governante de todas as relações humanas e sociais” (MILANI, 2003, p. 31).

É complexo o processo de preparação de ingresso de uma criança com deficiência na educação escolar, pelo que é decisivo organizá-lo bem. É vital uma coordenação que defina o papel de cada participante no trabalho colaborativo, delegando responsabilidades claramente definidas. Assim sendo, não se consegue fechar um conceito único que dê conta dessa intrincada condição.

Para que haja realmente a inclusão e a “Cultura da Paz”, há necessidade de promover a responsabilidade social entre alunos e o sistema como um todo, assim como as escolas, reportarem – se aos pais, à comunidade e ao Sistema Educacional. Há necessidade do envolvimento das famílias, a formação dos educadores, relações claras sobre os papéis entre os profissionais e desenvolvimento de planos educacionais.

O plano da escola precisa enfatizar a importância da colaboração com os pais. Eles são membros plenos do processo de formação de políticas e de tomada de decisões. A preparação de professores deve almejar dar-lhes conhecimento especializado sobre as necessidades específicas dos alunos, ampliando as possibilidades de inclusão. A iniciativa das autoridades em projetos de responsabilidades educacionais deve ser prioridade para a real inclusão por meio da “Cultura da Paz”.

Os currículos devem ser caracterizados por sua habilidade de incorporar conteúdo que promovam o desenvolvimento de habilidades sociais, além do conteúdo acadêmico. Para atender às diferentes necessidades, o currículo e as atividades devem ser dirigidos a todos os alunos. As adaptações são feitas pelos planos individuais que precisam garantir a participação do aluno em sala de aula e a “Cultura da Paz”.

Inclusão é uma comunidade de pessoas diferentes que atingem um nível mais alto de forma conjunta, e não sozinhas. É a consciência do fato de que todo ser humano tem necessidades especiais que devem ser tratadas adequadamente, promovendo a “Cultura da Paz”.

Conclusão

A Escola é um espaço de convívio e é compreensível que conflitos, incompreensões, angústias, incertezas sobre a inclusão e a “Cultura da Paz” apareçam. É necessário refletir as ações e as reações dos professores e dos alunos nas suas interações, estimulando o diálogo e o propósito diante aos conflitos. Um assunto eficaz é que haja a reflexão da escola no procedimento pedagógico para estimular a convivência mais pacífica e o trabalho solidário. Se conjeturarmos bem, essa é uma situação que reflete o que acontece com a própria educação.

É necessário um autoconhecimento por parte dos professores, um entrosamento social e do quadro das relações que acontecem na escola. No âmbito pessoal, é preciso reconsiderar suas próprias percepções de conflitos, de exclusões direta, indiretas e basilar. Sobre o contexto, é entender que a inclusão/exclusão que se manifesta no ambiente escolar é a ponta do iceberg e que não adianta somente tratá-la, mas sim entender o que gera esse tipo de atitude.

O aluno está construindo seu próprio processo pedagógico e necessita do professor para auxiliá-lo, ou seja, ser seu mediador. O ideal é auxiliar a refletir sobre as próprias dificuldades que surgem em seu caminho para construção de sua aprendizagem lhe oferendo ferramentas que auxiliem também nas relações interpessoais que se dão na escola. Para resolver um desafio, há o diálogo para ponderar a situação pela “Cultura da Paz”.

O estudante precisa compreender o que são os direitos humanos no contexto escolar e pensar as diferenças, pois todos nós somos únicos e singulares. Isso tem que ser realizado nas instituições de ensino, como o nome de “Cultura de Paz”, pois assim esse processo de humanização das relações e da inclusão ficará com certeza, mais claro.

A “Cultura de Paz” é um amplo conceito que acolhe cinco importantes áreas: valores humanos; educação para direitos humanos; mediações de conflito e práticas restaurativas; questões ligadas ao meio ambiente, que avocamos de eco formação; e vivências e convivências escolares (SALLES FILHO, 2000).

Quanto mais a escola conseguir realizar atividades dessas cinco áreas, mais estará envolvida com essa proposta. Apenas debater valores humanos – como a opinião de responsabilidade ou solidariedade – deixa-se a parte o assunto social que gera em nosso caso, a exclusão.

Para isso, trabalhos de direitos humanos para a inclusão escolar verdadeira, devem colaborar. Isso é de extrema importância para o diálogo e a recomposição de vínculos pela mediação por parte do professor. Caso contrário, corre-se o risco de a instituição de ensino apenas chamar os alunos para desenhar, cantar uma canção sobre a paz para um público aplaudir e se sensibilizar ou dar um abraço coletivo em um prédio público,  expor as crianças em uma ação social como se elas estivessem incluídas, como se a paz já se instaurasse imediatamente a partir daí. O que não é verdadeiro.

Parece complicado “ser criança hoje em dia” (LONGO CARMINATI; COSTANTINO, 1992), porque deparar-se com a infância na sociedade atual, apresenta-se aos professores uma tarefa muito difícil, já que suas instâncias se concentram em uma visão totalmente diferente do que a criança necessita. Pois, olhamos a crianças com olhos de adulto, o que desvia à leitura, assimilação e inferência de crianças que, na realidade, são aquelas identificadas por nós e pelo mundo que de forma incoerente elas auxiliaram a construir.

Montessori apontou que: “sim, certamente amamos a criança, amamos muito, mas não a vemos em sua verdadeira luz. […] ignoramos o que devemos fazer por ela, o lugar que ela deveria ter na sociedade” (MONTESSORI, 1970a, p. 69). “Precisamos organizar a paz, preparando-a cientificamente através educação. […] o bebê é um embrião espiritual delicado, mas capaz de desenvolver-se e dar-nos a tangível prova da possibilidade de uma humanidade melhor” (MONTESSORI, 1970a, pp. 40-41).

 Ao identificarmos os elementos que compõem a escola atualmente, os serviços educacionais que podem ser dados realmente à criança possam levá-la à uma educação que respeite sua liberdade e autodeterminação, a um ensino da tolerância e da paz, e não da luta, entre o adulto e a criança.  

A escola deve ser um ambiente que apoie e aumente, o clima de confiança, as habilidades interativas-sociais da criança com e sem deficiência para que interajam, sem que o adulto monopolize o relacionamento, afastando dela a possibilidade de desenvolver a experimentação livre, a imaginação e a criatividade (SCABINI, 1985).

Montessori reafirma: a criança deve ser cuidada desde o nascimento e educada para se adaptar ao ambiente, mas este entendido como um espaço de ação, isto é “um ambiente de atividade” (MONTESSORI, 1970a, p. 74).

A preparação peculiar e sempre passível de modificação, as condições materiais e arquitetônicas são o cenário para uma relação educacional específica, baseada na ideia de uma criança competente, ativa e participativa, livre de preconceitos. Trata-se de encontrar a ordem natural, “da vida”, na qual a liberdade adota configuração.

A criança desenvolve essa ordem quando lhe é possibilitado agir livremente desde o primeiro ano de vida (HONNEGER FRESCO, 2017); em sua maneira de agir, ele ensina à sociedade: calma, ordem, disciplina e harmonia, se lhe for permitido agir livremente, se for “ensinado a fazer sozinho”.   

Toda criança aprende. Até aonde? Não importa! O que importa é que aprenda no seu ritmo, seja respeitada, apreenda, faça do saber “seu” e seja feliz.

A esperança do futuro está no reconhecimento da infância.  Pela “Cultura da Paz” contribuiremos para a renovação da humanidade. É efetivo que o adulto retorne a reencontrar a sua função de criar e mediar uma nova geração, e se encoraje para avalizar que a visão futurista de Montessori não permaneça como uma utopia: “mas a criança sempre ressuscita e volta, fresca e sorridente, para viver entre os homens!”(MONTESSORI, 1972, p. 305).

“Paz, para ser vivida, tem de ser construída, dia a dia, nos pequenos atos, de onde germinam as grandes transformações. Paz é para ser realizada, não só idealizada. Paz se faz, não é dada” (ALMEIDA, Silvio Vaz de; Diretor Superintendente da Fundação Vale).

O ser humano não é a deficiência; a autorização do saber primeiramente e o acreditar em suas potencialidades são dadas pela família que acredita ou desacredita, permitindo ou não a construção de seu conhecimento, a ação, o “ser no mundo”.

O segundo núcleo que lhe dá suporte aliando-se à família é a escola que por meio do vínculo de afeto, não evidenciando suas fragilidades, mas descobrindo suas possibilidades e desta forma elencando suas competências, habilidades e atitudes, aceitando, compreendendo, orientando a família, tornando-o um cidadão pela “Cultura da Paz”.

O terceiro núcleo é a sociedade que tem como função disponibilizar a todos os cidadãos a mesma oportunidade de colocação no mercado de trabalho, sem discriminação de raça, cor, condição física, intelectual mediante o cargo ofertado.

Este é o momento de realizarmos algumas reflexões fundamentais na maneira de pensar e viver. Atualmente, a Inclusão está rapidamente se tornando um princípio estimulado em toda parte do mundo.

A mudança irá iniciar quando se estabelecer a vinculação entre o “Eu” e o “Tu”, gerando o ponto de encontro e a transformação, culminando em “Você”, combustível de nossas ações, que nos fornece a energia para continuar.

Referências

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CABEZUDO, A.; CHRISTIDIS, C.; SILVA, M. C. Da; DEMETRIADOU-SALTET, V.; HALBARTSCHLAGER, F., & MIHAI, G.-P. (2010). Guia Prático para a Educação Global – um manual para compreender e implementar a educação global. Lisboa: Centro Norte-Sul do Conselho da Europa.

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SALLES FILHO, Sérgio; BONACELLI, Maria Beatriz; MELLO, Débora. Metodologia para o Estudo da Reorganização Institucional da Pesquisa Pública. Parcerias Estratégicas. Nº 9. out./2000. Disponível em: http://seer.cgee.org.br/index.php/parcerias_estrategicas/article/viewFile/126/120

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[1] Agrello, Marisa Pascarelli. Doutora em Ciências da Educação pela Universidade Trás os Montes e Alto Douro – Vila Real – Portugal. Mestre em Educação pela Universidade São Marcos – São Paulo – Brasil. Pró- Reitora de Desenvolvimento Institucional do Centro Universitário Inta – UNINTA, Sobral – Ceará – Brasil.

[2] Escola, Joaquim José. Doutor em Ciências da Educação pela Universidade Trás os Montes e Alto Douro – Vila Real – Portugal. Membro Integrado do I&D*IF da Universidade do Porto.

Publicado por marisaagrello

Sou Pedagoga de Formação. Especialista em Psicopedagogia e Psicomotricidade. Mestre em Educação, Administração e Comunicação. Doutora em Ciências da Educação e Pós doutoranda em Ciências da Educação.

Um comentário em “EDUCAÇÃO PARA A PAZ A REALIDADE DA INCLUSÃO: A IGUALDADE DOS DESIGUAIS

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